Esta Conferência, que marcou o início das celebrações do 30º aniversário da Animar, foi participada por cerca de 100 pessoas e contou com a presença de diferentes personalidades representativas de vários setores, nomeadamente estado, poder local, academia, institutos públicos e especialistas da sociedade civil que defendem que “é fundamental que a articulação «envelhecimento ativo e saudável – desenvolvimento local» esteja suportada na participação efetiva das pessoas mais velhas nas estratégias e nos projetos que lhes são destinados”.
Em representação do Instituto Politécnico de Castelo Branco, o vice-presidente Luís Farinha salientou a importância da colaboração entre a academia e entidades da sociedade civil para o desenvolvimento de conhecimento nos diferentes domínios, entre os quais se destaca o envelhecimento e o desenvolvimento local.
Leopoldo Rodrigues, presidente do município de Castelo Branco, destacou a importância da intervenção da sociedade civil para o prolongamento da vida com qualidade, nomeadamente para assegurar condições de vida com dignidade, sendo esta uma área emergente que contribui para a dinamização da economia local, para a promoção do emprego, para a aquisição de produtos para os serviços que prestam, cujo peso da sua intervenção é bastante significativo nas dinâmicas locais. É preciso refletir, investigar e planear os processos de envelhecimento, o que implica também que sejam criadas políticas de apoio para os mais idosos, sobretudo ao nível da saúde. Por fim, o autarca fez ainda referência a um projeto diferenciador que este município pretende desenvolver, no contexto local, que se foca na qualidade de vida e melhoria da qualidade de vida das pessoas e para o qual voltará à conversas com as entidades ali presentes, pois é crucial a participação e envolvência dos mais idosos nestes processos, conforme foi reforçado por Paulo Silveira, diretor da Escola Superior de Educação - IPCB.
Em curso desde dezembro de 2020, a Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030, declarada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, é a principal estratégia para alcançar e apoiar ações de construção de uma sociedade para todas as idades, tendo em vista a mudança sobre a forma como pensamos, sentimos e agimos com relação à idade e ao envelhecimento; como garantimos que as comunidades promovam as capacidades das pessoas idosas; a quem entregaremos os serviços de cuidados integrados e de atenção primária à saúde centrados na pessoa e adequados à pessoa idosa; e como possibilitaremos o acesso a cuidados de longo prazo às pessoas idosas que necessitem, como foi referido por Maria João Guardados Moreira, coordenadora da Escola Superior de Educação - IPCB e da AGE.COM – Unidade de Investigação Interdisciplinar Comunidades Envelhecidas e Funcionais do IPCB. Na sua opinião, há uma interligação entre envelhecimento e oportunidade, aspeto que pode contribuir para o desenvolvimento dos territórios, para a emergência de novas respostas, além das respostas tradicionais, cuja forma como as comunidades lidem com este fenómeno pode contribuir para a emergência da economia da longevidade.
Segundo a especialista, é preciso uma visão prospetiva das futuras pessoas idosas para ir ao encontro das suas necessidades e expectativas, o que requer a colaboração entre a academia e entidades locais para responder aos desafios que vão surgir que vão ter implicações ao nível de novos serviços, novas profissões, o que carece do desenvolvimento de estratégias e oportunidades de desenvolvimento integrado para a prossecução de uma política de envelhecimento territorial assente na comunidade, na proximidade e na coesão social e territorial.
Marco Domingues, presidente da direção da Animar e professor adjunto da Escola Superior de Educação - IPCB, fez referência ao desenvolvimento local enquanto modelo de bem-estar, cujos valores e princípios são promotores da longevidade, que na sua globalidade decorre dos nossos genes (20%) e do nosso estilo de vida (80%). A este propósito, o dirigente da Animar destaca a relevância das redes sociais de suporte às pessoas mais idosas, que implicam comportamentos saudáveis e a sua relação com a família, o abrandamento dos ritmos de vida e a prossecução de objetivos de vida. Por fim, destacou ainda a importância da realização desta reflexão, com a participação de pessoas mais idosas, cujo contributo considera relevante para potenciais políticas públicas.
Prosseguiu-se para a apresentação dos resultados do Estudo de Avaliação Multidimensional do Envelhecimento Ativo e Saudável, o qual pode ser consultado aqui, cuja exposição foi realizada por Raul Marques, Coordenador Científico do Grupo de Trabalho da ANIMAR Envelhecimento e Desenvolvimento Local e autor do estudo.
Com o objetivo de avaliar a presença de fatores de envelhecimento ativo e saudável nas pessoas com idade igual ou superior aos 65 anos, o autor do estudo destaca a importância de manter a atividade física e cognitiva, enquanto pilares estruturantes da qualidade de vida e de promoção da longevidade.
Face ao envelhecimento da nossa sociedade e dos impactos que esta mudança acarreta para a nossa pirâmide etária, precisamos de definir um plano B para o envelhecimento ajustado às necessidades e realidades das nossas comunidades.
O autor defende que sejam criadas condições que possibilitem a participação, o trabalho, o exercício e a escolha destas pessoas, sendo apresentada uma potencial proposta de politica pública que visa a criação de planos gerontológicos locais, a partir dos quais possam ser desenvolvidas estratégias e/ou projetos locais com enfoque neste domínio.
Como sugestões para a criação destes planos, Raul Marques salienta a importância do envolvimento das pessoas mais velhas nos processos de decisão sobre as medidas e/ou políticas que lhes são direcionadas, do estímulo ao empreendedorismo sénior, possibilitando à pessoa a sua escolha pela sua situação face ao trabalho, a literacia em saúde, medicina antienvelhecimento e adoção de estilos de vida saudáveis para as pessoas idosas, como forma de quebrar mitos associados ao envelhecimento e por fim, o potencial das aldeias de bem-estar/aldeias comunitárias e de apoio preventivo e de promoção da saúde.
No âmbito da mesa redonda, moderada por Álvaro Cidrais, estiveram presentes diversas personalidades do meio académico e representantes de entidades públicas e privadas, cuja reflexão foi orientada a partir de questões que relacionavam o tema do envelhecimento com as diferentes dimensões defendidas no estudo, nomeadamente participação, trabalho, estilos de vida e serviços de apoio.
Quando questionada sobre que estratégias podem envolver as pessoas mais velhas no voluntariado local, Marisa Candeias, docente da Escola Superior de Educação - IPCB e investigadora da AGE.COM, referiu a importância do contexto local, na medida em que a implementação de projetos intergeracionais e/ou universidades seniores em contexto rural é totalmente diferente das práticas e da adesão em contexto urbano decorrente do perfil das pessoas, mas também das acessibilidades existentes. A este propósito, a investigadora referiu que o modelo de intervenção nos territórios rurais deverá sempre ser diferenciado, inclusive pelo perfil dos técnicos e técnicas, que deverão dispor de uma visão mais global, do seu potencial contributo para o desenvolvimento da pessoa e/ou da comunidade ou intervém, cujas intervenções sociais carecem de competências promotoras da participação e ligação à comunidade/sentimento de pertença, como forma de combate ao isolamento social, ou seja, precisamos de uma intervenção mais humanizada, de proximidade e de base colaborativa. Por fim, e a propósito do tema, Marisa Candeias ressaltou a necessidade de estratégias para envolver as pessoas mais jovens no movimento associativo, na medida em que as organizações já não têm capacidade para renovação dos órgãos sociais, que na sua maioria estão muito envelhecidos.
Na opinião de Luís Jerónimo, diretor do Programa Gulbenkian Desenvolvimento Sustentável da Fundação Calouste Gulbenkian, o que as pessoas mais desejam é poder envelhecer nas suas casas e com o devido apoio, ao nível da satisfação de necessidades básicas, mas também ao nível social e da saúde. Neste sentido, o gestor considera que, da conjugação da resposta local com o desenvolvimento local, pode resultar uma oportunidade que vem colmatar a necessidade que começa por identificar, uma vez que ao nível central, e face às respostas típicas que dispomos, é muito difícil satisfazer esta necessidade. O contexto que vivemos é também uma oportunidade de capacitação de quem presta apoio a pessoas idosas, alertando ainda para o flagelo da violência sobre as pessoas idosas, pelo que urge encontrar formas de colmatar este tipo de situações, na qual a rede local social tem um papel muito relevante, sobretudo no que respeita ao acompanhamento destas pessoas. Quando questionado sobre o potencial dos projetos de empreendedorismo sénior, Luís Jerónimo referiu que há um capital de saber muito importante que é preciso acautelar, pois a pessoa mais velha não será necessariamente apenas um cliente. Face às insuficiências das respostas públicas e às quais nem todas as pessoas têm acesso, esta oportunidade pode ser diferenciadora, sobretudo se for pensada numa escala local, salvaguardando a importância da literacia digital das pessoas mais velhas de acordo com as suas competências.
Carolina Vila-Chã, docente e investigadora do Centro de Investigação em Desporto Saúde e Desenvolvimento Humano do Instituto Politécnico da Guarda, mencionou a necessidade de desenvolver aprendizagens para nos mantermos ativos/as, fazendo referência à oferta que muitos municípios já asseguram, não só nos centros urbanos, mas também nas aldeias, cujo mérito se reconhece pela atividade física, interação e pela atividade social. Segundo a investigadora, os nossos serviços de apoio estão sobretudo focados no apoio e nas perdas que a pessoa enfrentando, é preciso mudar e apostar em serviços humanizados e apoio que mantenham as pessoas nas suas dinâmicas de vida, podendo a tecnologia ser uma ajuda, mas não como condição. As pessoas que vivem em meio rural são naturalmente mais ativas do que aquelas que vivem em território urbano.
Maria Inês Amaro, diretora do Departamento de Desenvolvimento Social do ISS, I.P. começou por destacar a diferença entre envelhecimento e longevidade, referindo que o desafio que a nossa sociedade tem pela frente é como nos vamos adaptar aos novos contextos sociais, ou seja, como adaptamos a sociedade, enquanto modelo societário, para melhor responder à felicidade e bem-estar das pessoas? É preciso desarrumar formas de pensar, refere.
Quando interrogada porque é que não se pergunta às pessoas mais velhas, mesmo aposentadas, se têm interesse em voltar a trabalhar e em quê, a diretora começou por refletir sobre o que são os tempos de trabalho e os tempos de reforma e a necessidade de haver uma mudança e uma nova visão mais flexível, que possibilite a conjugação de formação, com tempo de trabalho e tempo de reforma.
No que respeita ao modelo de respostas sociais existentes, Maria Inês Amaro referiu que a Segurança Social está atualmente a trabalhar uma Rede de Respostas Integradas, para que possam abrir um leque de possibilidades às entidades que prestam este tipo de serviços, pois é preciso repensar o serviço de apoio domiciliário entre outras respostas, como é o caso dos centros de dia. É preciso diversificar e ampliar a rede de respostas de acordo com as necessidades de cada pessoa. Segundo a diretora, estas redes têm que ser locais e os planos gerontológicos devem estar ancorados na Rede Social, colocando as franjas mais velhas da nossa sociedade em interação com o resto da sociedade e da comunidade em que estão inseridas. Por fim, Maria Inês Amaro destacou ainda que a Segurança Social, em articulação com os serviços da saúde, a academia e as entidades devem construir sociedades mais proporcionadoras de bem-estar.
No âmbito deste debate, o autor do estudo destacou algumas estratégias que poderão contribuir para este trabalho, a saber: animação dos espaços locais; capacitação de agentes de desenvolvimento local dos territórios; criação de bolsas locais de cuidadoras e cuidadores certificados – 24h/dia; capacitação e literacia digital tendo em vista o desenvolvimento de novos modelos de acompanhamento; criação de ciclos intermédios de reforma; e criação e validação de modelos de apoio local.
Beatriz Cristóvão, em representação do Espaço T, e Sara Antunes, em representação da Ativar Lousã, destacaram o trabalho levado a cabo pelas entidades onde trabalham, salvaguardando a importância da relação de proximidade e da escuta ativa no seu dia-a-dia para mitigar os efeitos da solidão, da pobreza e do sentimento de inutilidade de muitas das pessoas com quem trabalham.
Regina Vieira, docente da Escola Superior de Educação – IPCB, coordenadora da Licenciatura em Serviço Social e Investigadora da AGE.COM fez um comentário global às várias visões e assuntos abordados no âmbito da mesa redonda, destacando a importância da humanização dos serviços e das respostas, valorizando as pessoas enquanto cidadãs e cidadãos, a participação como direito, a envelhecer com dignidade, e como dever, poder de construção/agente de mudança.
Já na sessão de encerramento, Lucinda Almeida Carvalho, vice-coordenadora da AGE.COM, destacou que o aumento da esperança média de vida cria desafios com preocupações crescentes em torno das desigualdades em matéria de cuidados de saúde e na segurança social. Segundo a investigadora, precisamos de respostas imediatas da saúde pública e da sociedade que possam atender a este novo equilíbrio social, no qual exige que todos possam participar e desempenhar um papel ativo.
Este é o momento de juntar a academia e a sociedade civil, num denominador comum que é o de tornar as Comunidades Envelhecidas Funcionais, olhando para o presente e projetar o futuro através de uma melhor coordenação de recursos, políticas e estratégias que se centrem em minorar as desigualdades que têm impacto na velhice. As implicações de uma vida longa são de grande alcance, afectando indivíduos, empresas, comunidades e governos. Como sociedade, temos de nos preparar para a longevidade, o que significa envolver todos os sectores: os sectores privado e público, académico, social, organizações não governamentais e voluntariado.
Estamos num ponto de transição, é preciso assegurar que as comunidades e as suas populações estão ativamente envolvidas e participam na Sociedade enquanto vivem mais tempo. Estas vidas mais saudáveis obrigam a uma abordagem que inclua toda a sociedade - dos governos e do sector privado, aos indivíduos e famílias e nas áreas tão díspares quanto: trabalho, voluntariado e educação; infraestruturas sociais; ambiente físico; saúde pública, sistemas de saúde, e cuidados a longo prazo. É o momento ideal para aplicar tudo o que sabemos e que está ao nosso alcance na construção de sociedades que possam permanecer robustas e mesmo prosperar devido a, e não apenas apesar da mudança demográfica. Por fim, reforçou a importância da inovação e da adaptação aos desafios do amanhã com definição de metas de rendibilidade e crescimento realistas pode ditar o sucesso da implementação de uma estratégia. Tem que ser inovador, mas também humano e prático.
Bernardino Gata Silva, Presidente da Assembleia Geral da Animar, destacou o potencial do estudo levado a cabo pela Anima para repensar as questões associadas ao tema do envelhecimento e das respostas sociais, terminando a sua intervenção com uma alusão à necessidade de uma maior interação da nossa sociedade.
Para prosseguir o encerramento formal do encontro, usou da palavra a Senhora Secretária de Estado da Inclusão, Dr.ª Ana Sofia Antunes, que fez referência ao trabalho levado a cabo por este Governo em prol da melhoria das condições de vida para as pessoas idosas, destacando o papel das Comissões de proteção das pessoas envelhecidas criadas, bem como a criação da linha 65+, que apoio as pessoas mais idosas, bem como as suas famílias, pelo apoio que prestam.
No âmbito dos concursos mais recentes, o Governo tem vindo a apostar na criação de respostas sociais inovadoras, destacando-se no território a habitação colaborativa da CERCI de Portalegre e uma estrutura colaborativa em contexto de comunidade, em Marvão.
Ana Sofia Antunes reforçou a importância de garantir respostas em contexto de comunidade, pois as pessoas querem ter o controlo da sua vida e viver com qualidade de vida.
O Programa de Recuperação e Resiliência tem permitido mobilizar verbas significativas para as respostas sociais, verificando-se à data um investimento no valor dos 22 milhões de euros, prevendo-se um novo aviso em março de 2023 direcionado para projetos inovadores na área do apoio domiciliário.
Segundo a Senhora Secretária de Estado da Inclusão, o aviso que irá ser publicado muito em breve referente à nova visão do serviço domiciliário contemplará algumas novidades, nomeadamente uma alínea dedicada à realização de adaptações nas casas das pessoas idosas para minorar as barreiras arquitetónicas para que estas pessoas possam permanecer nas suas habitações. No que respeita ao serviço domiciliário, este poderá ser complementado com atividades que estimulem a participação das pessoas idosas, podendo esta oportunidade ser uma alternativa ao funcionamento da resposta de centro de dia, contribuindo assim para uma nova visão das políticas públicas e outra visão sobre as pessoas mais velhas. Por fim, Ana Sofia Antunes salientou a importância da cooperação entre a academia e a investigação, tendo o atual Governo criado recentemente o OE - Observatório do Envelhecimento, dedicado à investigação interdisciplinar sobre o envelhecimento, em áreas que incluem Demografia, Ciências Sociais e Ciências da Saúde, e à formação académica em estudos de envelhecimento, comunicação científica para a sociedade em geral, bem como a avaliação e pesquisa de políticas públicas relacionadas com o envelhecimento da população.