Segundo dia da 14ª edição da MANIFesta - 2 de Julho 2022

02/07/2022 |
Segundo dia da 14ª edição da MANIFesta - 2 de Julho 2022

 

O segundo dia da MANIFesta foi marcado por um conjunto vasto de atividades, entre as quais atividades ao ar livre, nomeadamente uma sessão de yoga e meditação, oficinas mãos na massa e oficina de música, feira, debates, partilha de experiências, assembleia de jovens e a assembleia de jovens.

 

As Oficinas Mãos na Massa, decorreram no jardim público e na Biblioteca da Covilhã, proporcionaram uma ampla partilha de experiências sobre saúde capilar, feltragem, produção de biofertilizantes, artes marciais ou trabalhos com lã, de jogos, tertúlias, culinária síria, fabrico de sabão a partir de óleo usado, terapias alternativas, cestaria artesanal e um encontro de mantas.

A Feira Troca a Tod@s, uma iniciativa promovida pela CooLabora que congrega espaço de trocas por meio de moeda social, contou com mais uma edição no Jardim Público, com a participação de produtores/as, artesãos e artesãs, não só da Covilhã, como de territórios vizinhos. Esta edição integrou ainda a Feira do Livro Dado, uma iniciativa promovida habitualmente em Coimbra, pela Casa da Esquina.

Ao longo desta manhã, realizaram-se ainda quatro debates temáticos subordinados aos temas do Decrescimento: um modelo alternativo e sustentável?; Violência contra as mulheres e raparigas; Desenvolvimento Local e Comunidades de aprendizagem para a educação. Uma outra educação é possível?; Economia e Bem-estar.

No debate Decrescimento: um modelo alternativo e sustentável, a ideia de que a construção de um modelo alternativo implica bem-estar e que este se define pelo conhecimento que cada um tem de si próprio, sentindo-se bem; de que é necessário um outro imaginário, em rutura com aquele que foi construído nas últimas décadas e que marcou toda a nossa educação, em que a felicidade humana já não passa pelo consumo; que o crescimento económico não é ilimitado nem tem por fim o investimento sucessivo e crescente, nem tem de ser dominado pelos sistemas financeiros, que é preciso criar economias de troca que dispensem o dinheiro, foram ideias comuns defendidas pelos participantes.

Os intervenientes no debate Desenvolvimento Local e Comunidades de aprendizagem para a educação. Uma outra educação é possível? Consideram ser necessário mudar o paradigma do ensino e da educação e começar a introduzir mudanças a partir de dentro por via da intervenção cívica, em particular por via das associações de pais, que devem questionar o tipo de escola e ensino (regras que regem o relacionamento dentre a escola, alunos e pais, castigos, questionar o autoritarismo e a burocracia do sistema, o dever de obediência hierárquica, como articular família, sociedade e estado, etc).

A Assembleia de Jovens, organizada pela Animar, Activar, AEQUALITAS, AJD, ADM Estrela, ADRITEM, ARTivos, Barafunda, Coolabora e EcoGermiar, pôs cerca de meia centena de adolescentes a discutir questões sociais que os tocam directamente (e a serem incluídos na Declaração da MANIFesa a Covilhã), constituindo três grupos de discussão que propuseram:

GRUPO 1
- combater a iliteracia democrática a partir das escolas;
- facultar conhecimento político de forma a que se criem dinâmicas entre os jovens que os levem a interessar-se pela política e a formar opinião;
- combater a apatia de certos professores relativamente ao bulling e que se criem plataformas que garantam o anonimato, onde as vítimas possam apresentar queixas e fazer denúncias;
- criar mais subsídios e transportes públicos tornando-os acessíveis ás populações.

GRUPO 2
- no plano da Ecologia, apostar na sensibilização para a redução dos consumos e para a reciclagem;
- reconverter os transportes públicos de forma a torná-los mais ecológicos;
- incentivar a criação de hortas urbanas também nas escolas, devendo os produtos dessas hortas ser consumidos pelos alunos.

- no plano da Igualdade, estender as consultas de planeamento familiar ao rapazes e homens;
- reconhecimento do valor monetário do trabalho doméstico;
- combater os estereótipos em volta do vestuário e dos comportamentos;
- mais acessibilidades para deficientes.

- no plano do Território, criar estrutura capazes de fixar as populações evitando a sua migração para as periferias;
- transportes acessíveis;
- descentralizar o poder, atribuindo às autarquias mais meios, competências e capacidade de intervenção.

- no plano Democracia, introduzir disciplinas de educação política nas escolas;
- criar linhas de comunicação e denúncia, nas autarquias, onde os cidadão possam dar conta dos problemas locais;
- tornar a comunicação e o debate entre políticos e cidadão, dos jovens em particular, mais próxima.

GRUPO 3
- criar formas de participação e educação dos alunos nas escolas sobre política, desde o 1º ano;
- incentivar o debate entre jovens para que estes se tornem mais interventivos;
- criar meios de divulgação política através das redes sociais, salvaguardando a verdade e a qualidade da informação;

- no plano da Ecologia e Território, reforçar o consumo de produtos locais;
- valorizar a agricultura de subsistência, fomentando as hortas públicas, por exemplo;
- conceder às autarquias maior autonomia como forma de valorização do território;
- incentivar as hortas comunitária;
- criar empregos para especialistas em alterações climáticas;
- criar e melhorar as redes de transportes públicos.

No período da tarde, foram apresentadas várias Experiências Inspiradoras, no âmbito das quais foram partilhadas experiências em torno de iniciativas e projetos de desenvolvimento local, nomeadamente:


Do invisível no organismo social, Gabriel Simões (Bambual) estabeleceu um paralelo entre as sociedades humanas e as das abelhas (colmeias) questionando os presente sobre porque razão elas se organizam e estabelecem funções coerentes com a preservação da sua “casa comum”, a colmeia.

Vicissitudes de uma Moeda Local: a experiência do MOR. Rui Valente (Associação MOR) deu a conhecer os constrangimentos associados à criação e existência da moeda local, um instrumento importante para o desenvolvimento local, criada pela sua associação, tornada relativamente viável graças aos meios eletrónicos, no entanto insuficientes para garantir a sua continuidade, dada a sua insuficiente utilização. A utilização da moeda pela autarquia pode ser uma maneira de ultrapassar esses constrangimentos.

cityCOOP é uma cooperativa do Porto, em que todos os seus proprietários (5) são simultaneamente seus trabalhadores. Manuel Solla falou-nos da sua origem, e dos serviços que presta enquanto cooperativa de trabalho social nas áreas do turismo e alojamento local.

Cuba LEADER é um evento criado pelas Terras Dentro em 1993 e 1994, ao abrigo do programa LEADER, e retomado em 2017. Odete João e Teresa Batista relataram a experiencia da iniciativa que, ao mobilizar a comunidade, os GAL e as entidades locais, possibilitou a aberturas de diversos espaços abandonados da vila que foram utilizados para expor produtos locais e dar a conhecer saberes antigos, como por exemplo a produção de vinho de talha, atividades complementadas por um conjunto diversificado de animações culturais e seminários.

RegenERA Aldeia 2030 é um projeto de vida de Filipe Jeremias para fixar pessoas da aldeia onde vive e contrariar a sua migração para o litoral. Ao longo de um ano andou a falar com as pessoas, nascendo assim o projeto “regenerar aldeias”, com um horizonte temporal de 100, dado que é seu dever contribuir para os vindouros encontrem um lugar melhor para viver, mais ecológico, solidário e sustentável.

Tendo como princípio orientador a máxima “e não tens, cria”, aplica-o à RegenERA. Para ele não basta digitalizar a aldeia para a tornar viável. É necessário que dar poder às pessoas da aldeia, ouvi-las e criar projetos que respondam aos seus anseios e necessidades.

Comunidades de Energia Renovável, um passo importante para o combate à Pobreza Energética é uma iniciativa da Copérnico, que visa combater a pobreza energética através da criação de comunidades de energia. Sobre o que são essas comunidades falou Rui Valente, que começou por referir que a mais recente legislação (2017) sobre sistemas fotovoltaicos permite que se criem equipamento de captação da energia solar de utilização comum, segundo princípios cooperativistas. Desta forma pretende fazer chegar a energia fotovoltaica a quem não a pode pagar, objetivo impossível de cumprir sem o envolvimento das autarquias.

Co-housing, é um projeto promovido pelo CLAP – Centro Local de Animação e Promoção Rural, que tem como propósito apoiar a habitação colaborativa na promoção do envelhecimento ativo e saudável, evitando assim a institucionalização das pessoas.

O Museu Rural “Raízes” do Centro de Desenvolvimento Comunitário do Landal, foi o projeto apresentado por José Manuel Paz e José Carlos Silva, dirigentes desta organização, onde é apresentada uma coleção etnográfica muito interessante e completa de utensílios utilizados na agricultura e nos ofícios pelos habitantes locais. Ao longo da exposição é possível ver como se faziam os famosos tijolos de burro ou conhecer os utensílios que eram utilizados na escavação dos poços de água. O museu integra no seu espólio um tradicional carro de bois português em perfeito estado de conservação.

O ECOMAP - Roteiro de boas práticas ecológicas para técnicos de juventude em áreas rurais e nos subúrbios urbanos, foi o projeto apresentado por Noémia Simões, em representação da AEQUALITAS.

A ADSCCL – Associação de Desenvolvimento Social e Comunitários dos Cinco Lugares veio partilhar a sua experiência de apoio ao empreendedorismo – projeto Microninho – e o apoio ao envelhecimento em comunidade – Rede Cuidas.

O Laboratório do Futuro foi a prática apresentada pela Associação Juvenil de Deão, que veio partilhar o testemunho do trabalho realizado com jovens.

O documentário “Eu Sou”, foi apresentado pelo Conselho Local de Cidadãos do Distrito de Castelo Branco e “O Interior de todas as cores + Futuro está On”, um projeto promovido pela plataforma Covilhã a Marchar e Novo Mundo.

Como podemos imaginar bairros e cidades feministas? foi o tema da partilha de Lia Antunes, representante da entidade Mulheres na Arquitetura, que veio partilhar o seu trabalho de capacitação empresarial para a igualdade de género e de reabilitação de um espaço para a criação de um banco de partilha de materiais e ferramentas.

Alertando para a importância do tempo nas nossas vidas, Teresa Branco partilhou a experiência do Banco do Tempo, uma iniciativa trazida para Portugal pelo Graal, que promove a troca do tempo por tempo, o que contribui para o reforço das relações entre as pessoas e o sentimento de pertença e vizinhança, sobretudo nos contextos mais urbanos.

As Assembleias de Delegados/as e o Conselho Consultivo de Alunos foi a experiência partilhada por Andrea Duarte, representante do ICE – Instituto das Comunidades Educativas, sendo este um projeto piloto levado a cabo do Agrupamento de Escolas de Braga, que pretende promover a participação ativa de jovens no Conselho Pedagógico da escola.

Francisco Dinis, representante da Bioeco, veio partilhar a experiência de apresentação de cabazes, que um grupo de produtores/as locais tem vindo a desenvolver no âmbito da agricultura biológica e de proximidade, por via da criação de mercados locais, de uma plataforma de comercialização e da oferta formativa em agricultura biológica que dispõem no território do Fundão.

Neste mesmo âmbito, a Monte-ACE veio partilhar a sua experiência no âmbito do projeto “I’m Leader”, um projeto de apoio e capacitação de produtores/as locais, sobretudo nos domínios do marketing digital e comercialização online.

A Ananda Valley é uma associação, mas também um projeto, que promove a vida em comunidade sob a cultura do cuidado, inspirada pelo cultura Ananda Marga, proveniente da Índia, centrada na sustentabilidade integral (sustentabilidade ambiental, económica e social) e no desenvolvimento local, com uma visão de ser um modelo de vida sustentável do século XXI. A Ananda Valley está localizado num vale verde deslumbrante no centro de Portugal, perto da bela Reserva Natural da Serra da Estrela. Nos últimos anos, transformámos este vale exuberante mas abandonado num lugar habitável, sendo atualmente um centro de aprendizagem contínuo não formal para a sustentabilidade regenerativa consciente e o auto-desenvolvimento, um sítio de Eventos promotores de um estilo de vida saudável e vegetariano – retiros, encontros, etc.

A Fábrica de Alternativas, foi a experiência partilhada por André Cid, um projeto que teve inicio em 2013 e que se desenvolve em Algés – Assembleia Popular de Algés, onde cada pessoa dá o que dispõe e funciona também como agência do Banco do Tempo.

ASSEMBLEIA MANIFesta
A MANIFesta da Covilhã terminou com a realização da XIV Assembleia, durante a qual foram apresentadas as sínteses e propostas saídas da Assembleia de Jovens (em anexo texto integral das propostas).

Alberto Melo, fundador e ex-presidente da Animar, recordou que nesta edição da MANIFesta se encontram quatro gerações, o que para ele é gratificante. Lembrou a génese da Animar e o propósito que levou ao surgimento da MANIFesta, em 1994, com o objetivo de ser uma voz comum, interpelativa, de forma lúdica, dos poderes e também intervir politicamente.

De seguida foi apresentada uma síntese dos debates sobre Ecologia e Igualdade (Ver anexo), tendo a assembleia terminado com uma intervenção de Isabel Rebelo, diretora da Animar, que agradeceu o empenho das pessoas e organizações que tornaram possível esta edição da MANIFesta, a diversidade que a tornou possível e enriqueceu e tornou mais fortes as organizações que souberam lidar com a diversidade e a diferença, destacando a importância do funcionamento em Rede, não só dentro da Animar, como também na relação da Animar com outras Redes. Referiu ainda a importância de futuras edições da MANIFesta emergirem da base para o topo, manifestando assim a disponibilidade da Animar para apoiar futuros processos de cooperação com as entidades que estão no terreno. Por fim, destacou ainda a relevância do trabalho da Animar e do potencial da MANIFesta para ser um espaço de defesa dos interesses das entidades, sendo a presente declaração o resultado de um conjunto de interesses e necessidades de entidades associadas, como também das outras redes que se associaram a esta edição da MANIFesta.

Já na rua, foram lidos extratos da Declaração da MANIFesta da Covilhã e houve uma atuação da Banda da Covilhã.

Ficheiros:

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