O Dia em que a Terra se Fez Mar
Autores/as
Tiago Miranda, Raquel MoleiroSinopse
O livro reune as fotografias de Tiago Miranda e os textos de Raquel Moleiro, sobre a passagem do ciclone Idai pela Beira, Moçambique, em Março do ano passado. As vendas revertem integralmente para a Escola Secundária da Manga, na Beira, uma das mais atingidas pelo ciclone.
Editora
ACERTSobre
Os sobreviventes do Idai, que atingiu Moçambique em março de 2019, não conseguem explicar o ciclone a quem não o sentiu. Ensaiam palavras, tentam de novo. Falham. Não é possível retratar-lhe fielmente a dimensão. Ou a força. Ou sequer o barulho. O som do mundo todo a quebrar, a cair com estrondo, do céu cor de chumbo a abrir-se em chuva. Chuva não, onze horas de dilúvio, tão forte que a água parecia de pedra ao bater nas casas, nas árvores, ela sozinha a partir telhas e vidros, a desfolhar árvores inteiras, a rachar-lhe ramos e pernadas. E depois o vento a soprar rajadas de mais de 200 km/h como se estivesse a tentar a bater recordes de velocidade, a testar a resistência de todos os materiais de que era feita a Beira, as várias beiras, da cidade de pedra colonial aos bairros de chapa e tabique. E o mar, engordado por marés e céus, a varrer o que restava, a galgar limites, a fazer um oceano com 128 quilómetros de comprimentos e 72 de largura onde antes só havia terra e gente, a subir para lá da sobrevivência humana, a apagar a água aldeias inteiras.
Foi preciso ir lá e ver. Ver nos efeitos a dimensão do monstro. Seguir o rasto que deixou, marcado bem fundo, nas terras e nas gentes de Moçambique. Toda uma paisagem na horizontal, posta por terra, arrancada. Olhar uma Beira destruída, perceber-lhe a beleza entre os cacos. Assistir ao retrocesso de um povo em cada escola destruída, ao estremecer da Fé nos templos caídos. Ver a cólera a avançar nos charcos estagnados e acreditar em milagres a cada nascimento sem condições mínimas. Imaginar a fome a ceifar vidas nos milhares de hectares de searas de milho afogadas – “Não vai dar, não vai dar”. Fazer o caminho até à martirizada aldeia de Búzi, entrar numa povoação pintada a lama, numa catástrofe conservada em sépia. E fotografar tudo, para que se saiba que não foi só um pesadelo de que se acorda ao amanhecer.
Em cada imagem vê-se o olhar de quem olhou o mal nos olhos. Em cada imagem vê-se que quem não tem nada pode, ainda assim, perder quase tudo. E ainda assim, levantar-se. E seguir.
Este pequeno livro é inversamente proporcional à tragédia do Idai.


